Gente de esquerda hipoteticamente falando

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Gente de esquerda pra mim é gente que bebe na calçada, é gostar de fazer nada pelo prazer de fazer nada, é lutar por aqueles que não conhecem e pela melhora de uma vida e realidade que, nem sempre, se viveu.

Gente de esquerda pra mim é ser anti elitista, chorar em filme, ler livros de história mas também gostar de Harry Potter. É abraçar os amigos e fazer mais amigos só pela benção que é fazer amigos. É não julgar pelas primeiras impressões e, se julgar, depois assumir. “Julguei. Errei. Caguei”.

Gente de esquerda é ator, é músico, é pintor, é das artes, é do amor ( ou tenta ser, ninguém é perfeito), é mochileiro, é da natureza, é da balada cheia e feia mas que toca música boa.

Gente de esquerda pra mim é feminista, luta contra a homofobia mesmo sendo hétero, contra o racismo sem ser negro, fica triste quando tem algum pensamento escroto e depois sente um prazer inexplicável o desconstruindo pra construir um novo e depois desconstruir de novo. Se policia sobre o que pensar, se questiona todos os dias sobre o porquê de pensar do jeito que pensa. Quando acha que encontrou uma teoria, uma resposta, uma maneira de se tornar melhor, vai lá e muda, porque estava tudo errado.

Gente de esquerda é chinelo de dedo, é roda de violão na praia, é viagem pra São Thomé, é sorriso brisado, é amor ao próximo, é ser pensante. Gente que desliza sempre, mas que assume o deslize e, quando dá, está pronto para sambar de novo e tentar trazer os bolsominions para o lado bom da força.

Obs: Esse texto é apenas minha percepção real, baseada em vivências mundanas, sobre gente CONSIDERADA de esquerda. 

(leu o CONSIDERADA, né?)

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Devaneios sobre a loucura

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Tenho vergonha de gostar daquele quadrinho da Maitena Burundarena, mas é mais provável que seja um certo receio por me identificar do que vergonha de fato. Sou alterada como todas aquelas mulheres desenhadas ali, mas não chego a ser maluca como elas, senão não seria maluca, uma vez que quase todas as mulheres se identificam com os quadrinhos. Se quase todas se identificam, inclusive eu, o que significa? Que somos todas alteradas e malucas ou eu sou só normal?

Já diria o título daquele filme oitentista: De Médico e Louco Todo Mundo Tem um Pouco, e acredito que todo mundo tenha mesmo, como o Coringa disse no final daquele outro filme, a loucura é como a gravidade, tudo o que precisamos é de um empurrão. Não creio ser saudável usar a frase de um personagem como o Coringa para justificar uma teoria, mas há outra maneira de falar da loucura sem citar os loucos? Kerouac, por exemplo, ama os loucos, principalmente os que queimam, queimam, queimam como fogos de artifício.

Na vida tive a chance de ver muitos malucos na rua. Mendigos gritando com veemência para o nada e sempre quando reparava no olhar deles notava que estavam muito focados. Loucura é eu pensar que deveria mesmo haver alguma coisa ali? Afinal, ninguém poderia olhar para o nada com tanta fixação assim.

Penso que gente mais velha é tudo maluca, mas não porque perderam o controle das suas ações ou estão gritando com veemência para o nada, mas sim porque já possuem todo o controle. Sendo assim, parto da ideia de que quanto mais velhos ficamos, menos ligamos para o que os outros vão pensar e menos fazemos o que os outros esperam que a gente faça. Por isso os idosos podem parecer mais rabugentos, eles não têm que provar mais nada pra ninguém, agradar todos ou ser gentil com quem, nem de longe, merece.

Será o louco aquele que vê tanto em tanta coisa que se cansa de dissecar os detalhes só na cabeça e precisa falar e fazer? Acho que falar é como uma dança: começamos aos tropeços, recatados, pegamos o compasso e depois disso, é puro improviso. Acontece que só os loucos conseguem improvisar dentro do compasso. Mas para improvisar dentro do compasso não precisa maluco, precisa? Afinal, ainda se está no um dois, um dois três. Maluco mesmo é o que nem o compasso usa.

Não falo muito, guardo tudo. Seria isso, finalmente, o que causa a loucura, especialmente a minha (se ela existir)? Guardamos as coisas até não caber mais e explodirmos em milhões de pedaços tão pequenos que se torna impossível de unir de

novo? Acho que posso dizer, não de maneira conclusiva e definitiva porque nada na vida é (principalmente quando o assunto é maluquice), que o louco mesmo, seja eu um ou não, é aquele que não deixa a bizarrice própria fluir. E não fluir da boca para fora (como os velhinhos ou o mendigo), mas sim pela própria mente. Alguém precisa avisar para essas pessoas que repreender pensamento não é bom. Do contrário se explode e não se junta mais. E o problema é que essa explosão não seria a mesma do Kerouac, mas sim uma outra não muito boa, que ao invés de expandir, comprime, comprime, comprime até você desaparecer.

Paz e Pedras

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A primeira coisa a ser feita quando se chega nessa cidade é entrar em uma loja de artesanato, e é justamente na hora de ser atendida que toda a essência do lugar se resume. O dono da loja aparece de barba branca e cabelo desgrenhado, anda com os pés metidos no chinelo de couro e sujos de terra vermelha, sorri tranquilo. É assim que se percebe que a cidade é habitada por pessoas como ele, que optaram por morar ali porque em qualquer outro lugar seria enfrentar um stress desnecessário.

Aqui a mensagem é clara, não ande de salto alto nem corra, do contrário pode se estatelar no chão. Isso porque o asfalto não é asfalto, mas sim grandes blocos de pedras que foram socados na terra em níveis diferentes, com a capacidade de fazer qualquer um torcer o tornozelo. Então calce suas sandálias com fivelas e ande devagar.

Ao contrário de muitas cidades turísticas, as construções não chamam atenção nem são bonitas. Se olhar superficialmente não passam de casas de pedra, mas tudo bem, pois a beleza do lugar não fica exposta. O truque é encontra-la nas ações, nos passeios, nas árvores e montanhas que se pode ver de camarote ao atingir o topo do Cruzeiro, lugar mais alto da cidade que se assemelha a uma escadaria de pedra branca com uma cruz feiosa na extremidade, mas que dá para uma vista verde de fazer chorar.

O astro da cidade se chama Ventania, cantor cujas músicas fazem apologia às ervas mas também a vida tranquila. O cinquentão descolado e hippongo recebe os fãs na porta de casa mesmo, dá autógrafos e convida todos para seu show à noite.

Depois de comprar um colar com a pedra do meu signo e um chapéu pontudo é hora de curtir as grutas. As opções são tantas que todo mundo passa rápido por elas com medo de não dar tempo.

Sigo de carro por um caminho de terra, a poeira que sobe faz minha rinite atacar, mas logo passa quando adentro a Gruta do Sobradinho, que causa o estranho desejo de não querer mais sair de lá, permanecer debaixo da terra e esquecer a selva de pedra. Agora a única pedra que compensa pensar é aquela que eu já me preparo mentalmente para subir e pular na água gelada.

Antes mesmo de chegar na cachoeira, o barulho da água corrente ecoa pelas árvores e ansiosos apertam o passo para chegarem logo. Faço o mesmo pois também quero banhar o corpo no Véu na Noiva e renovar as energias. Não importa se não faz tanto calor e a água atinge os ossos com violência. Nada anula o prazer de nadar em águas tão limpas. Dá medo de se afogar ou cortar o pé nas pedrinhas que parecem azulejos quebrados debaixo d’agua, mas é inevitável deixar de nadar mais fundo.

Passear pela cidade quando o sol se foi é obrigatório para notar que as estrelas ainda existem. As bandas dos bares no centrinho repetem o mesmo set list e chega uma hora que fica incômodo. A opção é usar a força para ir até a Pirâmide. Morro de medo de escorregar e quando chego ao topo da casa de pedra olho para cima. O breu profundo provoca um frio na barriga e a consciência de que, mesmo quando não a enxergamos, a natureza é perfeita.

Se Minas Gerais fosse uma pessoa que trabalhou a vida inteira em uma metrópole, São Thomé das Letras seria sua aposentadoria. O momento de deitar na rede e dormir de olhos abertos. Que delícia.

 

Matando meu Hutt

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Deixar  de interpretar a vítima do filme exige uma força que  não tive por minha vida inteira. Pode parecer o contrário, mas quem faz sabe que ser a vítima exige muito menos, é mais fácil, mais confortável, mais seguro, menos cansativo e dói como um tapa na boca.

Não lembro direito quando foi que resolvi aderir esse papel, mas acho que foi na pré-adolescência, quando ia para a locadora na sexta-feira a noite e alugava ao menos dois filmes de comédia romântica ( preferencialmente adolescentes) e passava o final de semana inteiro assistindo. O que eu aprendi  com esses filmes não foi apenas que há um final feliz, mas sim que há um final feliz depois de muito sofrimento da protagonista, sem ela necessariamente levantar um dedo, como um presente da vida. Era como o universo dizendo “Você já sofreu muito bullying, teve o coração partido muitas vezes, abaixou a cabeça a vida inteira. Agora tome aqui o amor da sua vida, uma bolsa na melhor faculdade e uma autoconfiança que crescerá em você  em um passe de mágica”.

O resultado disso tudo, foi que  aprendi que sofrendo muito, sendo boazinha, não correndo atrás dos meus objetivos e fazendo um  ótimo papel chegando em casa e chorar até dormir, eventualmente a vida teria pena de mim o suficiente e me daria tudo o que eu sempre quis. Infelizmente não acontece assim.

Ser vitimista inclui, além de ter uma auto-estima péssima, você se sentir que não merece o que realmente quer, e quando está pertíssimo de conseguir (como beijar o seu primeiro amor ou estar na última fase de entrevista daquela revista onde sempre quis trabalhar), vem a famosa auto-sabotagem. Inclui também você se sentir a protagonista da sua vida, mas aquela protagonista que nunca consegue sair da fase ruim do começo do filme. A fase onde a garota está feia, perdida, desempregada, sem chão.

Abraçar o vitimismo é cair em uma areia movediça e se afundar aos poucos sem perceber, até que a areia chega no pescoço e você percebe que ou cria forças para não se afogar de vez e sair dali, ou morre.

Hoje, aos  vinte e cinco, percebi que a areia não demorou para chegar no pescoço. E vi que  se esconder, se deixar sofrer e, o pior de tudo, correr atrás do sofrimento certeiro, não me levará a lugar nenhum.  Parece óbvio para quem não entende o que é assumir o papel de vítima.

É muito mais dolorido acreditar que não consegui um emprego porque não sou boa do que pelo fato de tudo estar contra mim? É claro que é! É muito mais duro acreditar que não atraio as pessoas porque sou carrancuda do que achar que é porque nenhuma daquelas pessoas me entende? Sem dúvida! Só de escrever isso já me aperta a garganta e um ataque de pânico começa a chegar de mansinho.

Acredito que todas as Leias precisam matar o seu Jabba. Se eu não gosto de como minha vida está e como sou agora, não tenho que me enforcar, tenho que enforcar o meu Hutt. Aquilo que me impede de jogar a mantinha das lágrimas e o pote de sorvete no chão e ir andar de bicicleta.

Não haverá um plotter twist, momento Rocky Balboa, vídeo clipe de Marry The Night. Pode ser que venha a ser uma luta pela vida inteira, e haverá perdas. Mas é aqui que enforco meu monstro, meu  Jabba, meu (ex-) vitimismo.

Sempre tem

Sempre tem aquela pessoa que você vai responder as mensagens super animada. Oi! Tudo ótimo! E você? Diga!! E ela vai responder blasé e pedir alguma coisa e você vai dar, porque quando ela pede você sempre dá.

Desesperada para parecer interessante, para captar sua atenção você vai vomitar mensagens idiotas e piadas sem graça e a pessoa vai sumir, sem cerimônias. Bem assim, quando você faz uma pergunta, sem medo nem escrúpulos de te deixar no vácuo. Até ela voltar, um ou dois anos depois, com outro pedido ou outra pergunta e você vai responder as mensagens super animada . Oi! Tudo ótimo! E você? Diga!! E você vai dar, porque quando ela pede você sempre dá. Sempre.

O intervalo aumenta conforme a frequência das mensagens diminuem. E não há curtidas em posts que alimentem suas expectativas mais. Até que, por fim, a pessoa, assim como seu perfil, começa a virar um fragmento muito pequeno da sua vida e você começa a rir de como a pessoa está enfeiando.

Dizem que a vida é uma montanha russa. Uma hora se está por baixo, mas eventualmente acabamos ficamos no topo também, um ciclo. A pessoa teve seu topo, e agora está descendo. E você está aqui esperando ansiosamente sua vez de ficar magra  e lançar um best seller.

 

 

Carta aberta para a atual do meu ex

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Você me disse para escrever mais. Um pouquinho por dia. Então hoje eu vou escrever uma carta aberta à sua próxima namorada. 

“Olá,

Eu queria poder te odiar, mas acho que para ele estar com você, você deve ser no mínimo alguém gentil e mente aberta. E isso basta para não desejar que fique careca e perca os dentes caindo de uma escada.

Infelizmente, eu não poderei dar muitos avisos sobre o que ele poderá fazer para te magoar, pois tenho em mim que, as coisas que ele fez comigo não são coisas de quem ama. Então, partindo do princípio de que ele te ame, ele não deverá fazer as mesmas coisas contigo. Mas, caso ele não te ame, e diga que te ama, pois ele ainda pode estar  tão desesperado, carente, inseguro e menininho, você poderá ficar mais atenta aos sinais de que algo está errado. E, amiga, é melhor não dar murro em ponta de faca quando a coisa simplesmente não flui. Certo?

Ele vai te fazer se sentir mal por ter que levá-la em casa (principalmente se você mora longe e não dirige). Não será nada intencional, ele não vai reclamar nem falar um piu, mas em conversas aleatórias vai comentar que está pobre porque vem gastando muito com gasolina ultimamente. Você vai se sentir um lixo, vai se sentir culpada, vai sentir uma energia ruim emanando dele toda vez que ele tiver que fazer o trajeto de mais de 30 minutos (ida e volta).

Você vai ter vergonha de algumas roupas que ele usará em certas ocasiões – ele não liga nada pra roupas – . Roupas de quando ele tinha 14 anos, furadas, desbotadas e que praticamente falam. Com o tempo você vai se acostumar e vai perceber que roupa é só roupa. Como consequência, vai passar a ligar menos para roupas também, e virará adepta do conforto. Calça, baby – looks, pouca maquiagem… O problema vai ser quando ele começar a olhar para meninas bem vestidas e, vez ou outra, falar como você fica linda de saia e vestido. Aí você pode vir a se sentir culpada por se vestir “mal”. Cabe a você o que fazer.

Ele vai perguntar se você já foi, vai parecer prestativo, mas, depois, seu ego vai inflar que uma beleza e toda a energia negativa e frustração que ele sentirá toda vez que acabar antes de você, vai passar para aquele momento. Assim, você vai se sentir culpada por ferir seu ego. Por que, afinal, você o ama.

A família dele é um amor. Ainda adoro sua mãe! Sem dúvida, é uma sogra maravilhosa. Uma mulher forte e bondosa. Infelizmente, tudo isso só bastou para ele ser feminista e mente aberta, não para abrir seu coração e pensar duas vezes antes de esmagar o de outra pessoa sem dó. Mas não foi sua culpa, ex-sogrinha.

Ele não dá presentes nem em ocasiões especiais, e  pode ser que não seja porque você é uma pessoa difícil de agradar (você gosta de filme, música, cultura nerd/pop, comida…certo?!), mas sim porque ele simplesmente não dá. Não tem a capacidade de pesquisar que livros você ainda não tem e não presta atenção no fato de que você já tentou ler Mr. Dalloway e odiou e aí compra Mr. Dalloway pra você de dia dos namorados depois de você mesma se passar pelo seu irmão falando pra ele que você ficaria muito triste se não ganhasse absolutamente nada ( sentença sem vírgula sim. Só para sentir o drama.)

Ele esquece de passar desodorante. Espero que ele tenha feito disso um hábito depois do nosso término. Do contrário, só o lembre antes de vocês saírem de casa para alguma hamburgada na casa dos amigos dele.

Os amigos dele são lindos. Sinto inveja e raiva de você por fazer parte desse ciclo e eu nunca mais poder vê-los novamente.

Ele nunca vai te fazer uma surpresa.

E agora, minha linda  que conquistou o meu namorado; apesar de tudo, pra mim, ele ainda é uma pessoa boa. Espero que a casca de metal dele caia com você. Comigo, por mais que eu tentasse, nunca consegui descascá-lo. Nas tentativas me cortei feio.

Se você não se importar em senti-lo distante, se não se importar com sua apatia, sua frieza, suas roupas velhas e seu quarto empoeirado, vai aproveitar muito seu senso de humor, seu sorriso de menino, seus braços fortes, seu peito que serve perfeitamente como um travesseiro, seu alô por telefone animado e simpático (foi justamente por causa desse alô que me apaixonei  antes mesmo de vê-lo), vai aproveitar as noites de pizza e filmes …

Espero que tudo o que ele fez comigo não faça com você pois, por mais que eu te odeie, não desejo essa dor para ninguém além do próprio. Agora…se ele realmente for assim, mesmo te amando, espero que você não precise de tanta atenção quanto eu. Dessa forma, sem sombra de dúvidas, vocês serão felizes para sempre.Do contrário, pegue sua mochila e corra.

Um beijo.

 

PS: ele não gosta de mostarda no sanduíche do Subway.”

 

 

O Carnaval dos 25

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A ressaca é evidente. Me lembro quando ia para as festas com treze anos e no dia seguinte, apesar do sono, meu corpo ainda parecia ter sangue pulsando. Hoje  me sinto  morta. Tem  um elefante em cima de mim. Surgiu até uma tendinite esquisita no meu pulso, devo ter dormido em uma posição bizarra, toda torta, babando feito uma velha que bebeu muito vinho no casamento da sobrinha.

Esses são meus 25 agora. Eu acordo na minha própria cama em uma quarta-feira de cinzas, depois de, pela primeira vez na vida, ter saído de casa com o objetivo de curtir o Carnaval.  Nunca fui do samba nem da zona, mas desde criaça sou obscecada por festas e tradições. E a experiência que eu gostaria de ter quando criança, no que se refere ao Carnaval, era sair na rua com os bloquinhos tocando Chiquinha Gonzaga, pessoas dançando frevo, eu com um lindo vestidinho pintado com as cores do arco-iris e alguém jogando confete e glitter na minha frente estrategicamente.

Tudo parecendo uma cena difícil de se concretizar, resolvi abandonar o Carnaval de vez antes mesmo de tentar. Virei dessas pessoas que comemoram o feriado pela folga no trabalho chato ou por ter quatro dias descansando e poder ver todos os filmes possíveis, adiantar a leitura, dormir. Dormir. Doooormir. Então, nesse ano, fiz a piadinha pronta de que faria parte do Bloco Netflix e na sexta-feira  comecei bem: muito filme, muita pizza e Coca (porque não podia beber álcool, devido aos antibióticos que comecei a tomar).

Só que aí o coração partido voltou a choramingar, e não tem nada mais poderoso do que um coração partido. Além do fato da terça-feira de Carnaval ser meu último dia como uma pessoa de 24 anos, eu que não ia ficar em casa vendo Hora de Aventura enquanto ele fazia cafuné nela. Por favor, ainda me resta um pouco de amor próprio!

Então, meus amigos, que são a minha família, e minha família – que por muita sorte também são meus amigos – , se puseram a vencer o calor e a preguiça e partimos rumo a uma folia tardia.

Um carro com seres humanos masculinos parou para encher o saco, na esquerda rolava o bloco folia –  resolvi chamá-lo assim porque tocava um frevinho clássico, o mesmo que eu imaginava quando criança- . Nas ladeirinhas eu vi a multidão dançar a cantar e todo mundo muito bem comportado e bonito e uma energia muito gostosa.

É. OK. Eu estava errada sobre você, Carnaval.

Enquanto o sol se punha naquela praça feiosa da Vila Madalena, olhava estupefata para a beleza de passar meu último dia com 24 daquele jeito. Abdiquei o antibiótico pela Catuába, pro inferno com a dor da cirurgia! Troquei a dor da rejeição por um lindo alto barbudo com cabelo cacheado que beijava tão babado quanto doce. Abdiquei o nojo do suor alheio dançando quase grudada na caixa de som, enquanto o DJ bonitinho e descolado se vangloriava pela festa bonita.

Quando acordei já era dia de cinzas. Enjoada e surda  me olhei no espelho,  vi o que não queria  ver. Alguém de 25 anos. Não estou triste pelas conquistas que não conquistei nem pelo que eu gostaria de já ter vivido e ainda não vivi, porque sei que vou viver. Estou triste porque, de alguma forma, eu realmente esperava que o tempo fosse parar.

Mas é quarta de cinzas. O Carnaval acabou. Ano que vem tem outro e mais outro e mais outro. E as pessoas não vão nem precisar abrir alas, porque eu mesma vou passar sozinha.