Depeche Mode em São Paulo: uma resenha nada imparcial sobre o show da minha banda favorita

1_MiLK29KVGtCrqclj9jGdew

Não vou conseguir escrever sobre esse show de forma imparcial e “jornalística”.

São 21h50 e a silhueta rebolante de um Dave Gahan de 55 anos aparece no palco. A partir daí eu fico como o “David depois do dentista” me perguntando se essa é a vida real.

Foram nove horas na fila e amizades breves com gente do Brasil inteiro. Às 17h30 o mundo começou a cair e os portões do Allianz Parque a abrir. Segui xingando os funcionários do evento que se colocavam na minha frente gritando “Não precisa correr! Você vai cair!” e cheguei na grade. Mais quatro horas debaixo de uma chuva insistente, o corpo congelado, uma plateia molhada e bem humorada ajudando o moço da equipe técnica a colocar uma capa de chuva, uma equipe de vinte pessoas seca o palco desesperadamente.

Antes do Depeche Mode entrar, colocam para rodar Revolution, dos Beatles. Uma introdução/referência ao primeiro hit do CD novo, Where’s the Revolution, música onde o guitarrista Martin Gore desabafa sobre seu desapontamento a respeito do pouco engajamento político e social da geração dele e nossa. Desculpa, Martin, está difícil mesmo essa revolução…

Dave Grahan entra no palco e está, ao meu ver, provavelmente cheirado. É impossível um homem da idade dele ter tanta energia para girar, correr, cantar tão bem sem perder o fôlego, dançar, pegar no pau e rebolar assim. Quer dizer, não tão impossível. Mas a verdade é que ele não é o protagonista da banda pra mim. É Martin Gore. O loirinho de olhos claros que nos anos 80 foi paixão platônica de muita adolescente e, agora, cheio de rugas, é o senhor dono das letras e melodias que me fazem pensar que a vida tem uma certa magia.

Não que Depeche Mode, apesar de uma banda de synthpop, seja feliz. A queridinha do movimento gótico tem um espaço especial no coração de todos com o espírito melancólico. E só quem gosta de verdade vai entender a alegria que as letras “realistas” de Martin Gore causa no coração.

Ficar na grade tem seus benefícios, e eu, como Amélie Poulain que sou, tenho meu coração aquecido por detalhes bobos. Como quando Dave encosta em Martin e ri para a equipe de backstage sinalizando que Martin já não conseguia descer e dobrar os joelhos. Ou quando fecho os olhos e , ao abrir, tenho a impressão de ver Dave passar o olhar risonho por mim. Ai meu coração.

Mesmo depois de ter passado horas debaixo de chuva, o público de 20 a 60 anos se aquece depois da terceira música e consegue passar a energia para a banda, obviamente já cansada (o Brasil foi o centésimo show da turnê). Depois de Precious, música coração que Martin compôs para seus filhos depois do divórcio, a gente bola um coro lindo no fim de Home, animando os músicos ingleses e tirando desajeitados pulinhos de empolgação de Gore.

Ao som de sintetizadores baixos e uma qualidade sonora duvidosa já característica de shows brasileiros, Martin Gore corre para a passarela e rege a galera com movimentos carismáticos.

A banda veio para cá há 24 anos. O ano era 1994, meses depois o vocalista Dave teria uma overdose de heroína. Foi o ano em que completei três anos, época em que Martin Gore passava por problemas psicológicos pesados e o ano que antecedeu a jogada de toalha do charmoso Alan Wilder para fora do grupo.

Foram aproximadamente 8.000 dias sem perspectiva dos brasileiros reverem a banda. E nessa noite acredito que eles percebem que erraram tendo demorado tanto para voltar. Está estampado no sorriso de Gore e nos agradecimentos de Gahan ao dizer que São Paulo é uma plateia magnífica. Eles dizem isso para todas, eu sei.

Inúmeras reboladas e pegação nas bolas depois, da parte de Dave, passinhos contidos de Andrew Fletcher atrás do sintetizador e a falta de um contato visual entre mim e Martin Gore, as lágrimas começam a escorrer com Stripped. Depois de novo em Walking in my Shoes e sua letra intensa (acompanhada de uma projeção, talvez mais interessante que o próprio clipe oficial). Todos cantam juntos com a garganta rouca. Depeche faz isso. É uma banda com músicas que saem do espírito de quem compôs e conquista o de quem ouve.

Depois do hino dançante Personal Jesus, o show chega ao fim. Dave Grahan bate na bunda de Andrew, todos se abraçam, se posicionam para se curvar e deixarem o palco, mas ficam alguns segundos encarando o Allianz Parque, até Martin perguntar se eles não iam agradecer não. Meio que dizendo “Alou, gente. Partiu?” seguido de um sorrisão.

Clássicos são clássicos por um motivo. As músicas do Depeche ultrapassam gerações e, mesmo com hits boa parte recheados da sonoridade característica dos anos 80, ainda consegue se reinventar e se conectar com fãs antigos e criar novos.

Relevo versões meia-boca, como a acústica de Strangelove, relevo Gore não ter jogado a palheta para mim, meus poucos anos de espera, a falta da sexy Behind the Wheel e da romântica Shake the Disease no setlist, e o fato de que talvez a banda nunca mais volte para cá.

Como diz a letra de Pleasure Little Treasure: “Todo mundo está procurando por uma razão para viver”. E essa noite a batida dançante e melancólica entrou na minha lista de razões.

Anúncios

O mito da autossuficiência

600x600

Reza a lenda que os autossuficientes ficam muito bem com eles mesmos, que não têm aplicativos de namoro nos celulares, saem sozinhos, veem filmes românticos no Netflix sem sentir carência. Reza a lenda que esses seres supremos não postam fotos no Facebook para mostrar a vida ótima que tem, não precisam da aprovação de ninguém. Se satisfazem apenas com amigos e, – meu Deus! – até mesmo sem amigos. Esses seres merecem ser estudados e claro, ovacionados por mim, que os admira tanto e espera chegar lá um dia também.

Nunca fui autossuficiente, se não estava procurando por um amorzinho estava chamando meus amigos para sair comigo porque nunca tive – e ainda não tenho – a coragem de sair sozinha por aí. No entanto, autossufiência verdadeira que digo aqui é aquela que procuro: a de não querer querer ninguém. Eu não quero querer ninguém, mas não consigo. Sabe aquele sentimento de chegar em casa, ligar o Netflix e ver um filme sem um pingo de ressentimento e carência? Sentar apenas com você e não pensar em ninguém nem se sentir um pouco sozinha sequer? Nunca tive.

Ok, para não mentir, tive momentos, frações de minutos, milésimos de segundos, um flash na verdade. O momento vem quando dou o primeiro gole de vinho branco, ligo Florence and The Machine bem alto, canto e penso “Nossa, estou sozinha e estou me divertindo”, a plenitude me atinge por inteiro e quando  tomo consciência dela.. puf! Se vai.

 Conversei com algumas amigas sobre isso e elas me disseram que já tiveram essa fase, a fase de não só não querer querer ninguém, mas realmente não querer ninguém. Fiquei olhando atordoada para elas enquanto me diziam que realmente não queriam ninguém. Não entendi e não entendo.

Minha jornada amorosa me fez crer que carência tem limite. Não dá para ficar com alguém que você não sente “a coisa”, estar com outro ser para suprir puramente a carência acaba sendo pior do que ficar sozinha. Já saí com caras que durante o encontro não parava de pensar que diabos estava fazendo ali, me desviando de cada toque, quando poderia estar em casa bebendo e ouvindo Shake it off. Isso é uma vitória, claro que é.  Com essa conclusão deixei de sair só por sair, sem sentir “ a coisa”. Acontece que ainda fico esperando conhecer um carinha e não quero isso. Quero poder sair sem procurar carinhas, quero só sair.

Assim sendo resolvi não procurar mais. Vitória numero 2! Mas ainda não é o suficiente, não procurar não é o suficiente para ser autossuficente. Para ser autossuficiente você precisa estar bem sozinha. E isso inclui amigos.

Amigos são uma coisa que realmente me deixa feliz. Seja fora de casa ou dentro dela, a vida fica mais colorida, com cheirinho de morango.  Saber disso me faz concluir que não sou carente só de amorzinhos, mas de pessoas. Preciso de companhia. Ou seja, há dois problemas aí.

Não conheci muitas pessoas que realmente são autossuficientes, elas são raras, na verdade não acredito nas que me dizem que são. Em sua maioria, se  não têm amigos na vida real, nem companheiros, elas apelam para as redes sociais, precisam dos likes, das fotos mostrando como a vida delas é, alguém precisa vê-las. Ou seja, é a falsa autossuficência. Isso me faz crer  que essas pessoas não existem. Você não é autossuficiente, você está. Se trata apenas de uma fase, muito curta, pra dizer a verdade. As pessoas que a alcançam acabam caindo nas graças de outras pessoas – amigos ou não – cedo ou tarde.

O dicionário informal diz que Autossuficiência “refere-se ao estado de não necessitar de qualquer ajuda, apoio ou interação de outros, para sobreviver. É por isso um tipo de autonomia”. Vamos concordar que se trata de uma utopia.

No momento tento atingir um estado autossuficente, porque eu sei que não serei para sempre e sei também que a gente precisa passar por esse estado cedo ou tarde,  querendo ou não.

 

A dinâmica do poder

1_QV8D0SD8-un-DCFmx3XOEg

Girls está na sua última temporada e, como se houvesse guardado o melhor para o final propositalmente, Lena Dunham ofereceu um episódio que causou um rebuliço no meu estômago. Terminei de assisti-lo angustiada, com algo preso na garganta, furiosa, mas principalmente triste. Tão triste que foi impossível não chorar. Fiquei com o episódio por um longo tempo na cabeça, não deixei de pensar nele por dias até tomar a decisão de vê-lo de novo para esclarecer o sentimento que me causou e finalmente entender o porquê.

O 3º episódio da 6ª e última temporada se chama American Bitch e começa quando um escritor aclamado convida a protagonista Hannah para seu apartamento. O motivo do cara é contar o seu lado da história sobre um artigo que Hannah havia escrito sobre ele. O artigo em questão trata das acusações de assédio sexual que esse autor recebeu de quatro garotas diferentes, e por causa disso ele não conseguia mais dormir, começou a fazer ­­terapia, meditação e perdeu 9 kilos.

Pensei então que Lena Dunham havia dedicado o episódio especialmente para falar sobre esses homens acusados de assédio por alguma garota, cuja história pode ser relativizada e causar um debate muito longo sobre consentimento. Assim, me aconcheguei no sofá e assisti pacientemente esse personagem se explicar e acusar Hannah de escrever um artigo sobre textos de mulheres — note bem, MULHERES — que ela nem conhecia, baseado em boatos.

Talvez esse cara tivesse razão e, assim como Hannah, o ouvi e me deixei levar. Ao longo da conversa, o personagem diz que nunca forçou ninguém a fazer sexo com ele, afinal todas as garotas que o acusaram de assédio sexual foram por livre vontade.

É engraçado, mas tudo o que ele fala começa a fazer muito sentido, no entanto a agulhinha do incômodo me espeta de leve na nuca. Já havia ouvido isso antes, a fala de que mulheres que acusaram algum homem de assédio sexual, na verdade, estavam inventando tudo. Inventaram porque sentiram-se magoadas e rejeitadas por esse homem. Então nada do que esse personagem escritor fala é novo, é um discurso muito velho: a manifestação da desconfiança. Por que devemos acreditar em universitárias que acusaram um autor famoso de forçá-las a fazer sexo oral nele?

Talvez ele esteja sendo sincero, concluo comigo. Fico quieta quando o personagem perde o controle e grita com Hannah que tudo o que ele fez foi convidar aquelas garotas para seu quarto de hotel. Onde um convite é um assédio?!

Tendo ele dito isso, Hannah cita o desequilíbrio do poder na seguinte fala:

“Estou falando da parte em que você é um escritor famoso e ela trabalha muito para receber uma migalha do que você recebe todo dia. Então você a convidou para ir ao seu quarto de hotel e o que ela deveria dizer?Não? Ela o admira. Então você tira a calça. O que ela vai fazer sem seguida?Você não entendeu. Não é que ela foi até lá para ter algo sobre o que escrever. Foi para ela sentir que existe”.

– perdão pelos possíveis erros de tradução.

Não estou falando que todas as mulheres que fazem isso são coitadas que, meu Deus, só querem a atenção de um homem que elas admiram, mas essa fala ficou muito clara para nos fazer entender a dinâmica do poder. E isso pode se aplicar em incontáveis escalas: de uma adolescente e um youtuber que ela admira — são INÚMEROS os casos de youtubers pelo mundo que constroem uma relação de poder e submissão com suas fãs, basta dar um google — , até uma garota comum com a autoestima baixa e seu ex-namorado que só queria uma transa rápida.

Por fim o escritor diz que convidar uma adulta para seu quarto sem forçá-la não é um crime. Convites não são áreas cinzas, são apenas convites. Ah, a área cinza. Saber que nem tudo é preto ou branco, que cada um faz o que faz por certos motivos, é reconfortante, pois todos nós temos traumas e histórias, mas apesar de oferecer o conforto de justificar atitudes que não conseguimos explicar nem entender, a área cinza é perigosa. É perigosa porque algumas coisas que não devem ser postas lá, são. E uma dessas coisas é o assédio sexual.

Vamos lá, quem com menos de quinze anos nunca foi assediada? Nós sabemos. Sabemos que quando está acontecendo não vemos nada demais. Ficamos lá, paradas, assistindo acontecer. Pode ser só uma massagem de um professor, um velho agarrando seu braço na rua quando você tinha dez anos, seu professor de teclado acariciando suas coxas quando você acertava as notas. Situações que, se ditas em voz alta, não parecem tão graves assim, pois carinho e elogios são relativos, certo? Se tratam, afinal, de áreas cinzas.

Assim como Hannah, e talvez Lena, me descobri cansada da área cinza. Me cansei porque é por causa dela que muitas de nós não entendemos o que exatamente aconteceu, porque usamos a relativização em busca de respostas. E, às vezes, a resposta está no preto ou no branco, nunca nos dois. Às vezes nem tudo possui dois lados.

Com essa revelação feita o episódio e eu seguimos juntos… Hannah se desculpa por ter escrito o artigo agora que conhecia esse escritor melhor. Eles criam uma sintonia e afinidade quando ele deita na cama encolhido, como um bebê desprotegido, e a convida para fazer o mesmo. Hannah deita e ele…bom, ele abre o zíper e coloca o pênis para fora.

Hannah, com o pênis do escritor jogado na sua perna, estende a mão em um impulso e pega nele. Quando percebe o que fez, entra em pânico.

E como ela falaria sobre aquilo? Como a gente faz para explicar ? Como dizer que na hora, mesmo ninguém tendo te obrigado, se trata de assédio? Se você entrou ali por livre e espontânea vontade, resolveu partilhar um momento com alguém e acabou fazendo algo que não queria fazer…Oras, é sua culpa!

É como uma redoma que só você se encontra e percebe depois, quando tudo parece estar bem mas ficou alguma coisa ali, igual um hematoma que surge no braço e você não tem ideia de como foi que aconteceu. O que resta fazer então? Como explicar de onde veio o hematoma sendo que nem você sabe? Então ficamos ali, presas àquele momento para sempre.

American Bitch, enquanto questiona o tal do consentimento, desafia com o queixo erguido esses homens que estão ali, conscientemente ou não, abusando do seu carisma e do seu poder, criando situações tão cinzas que não há cartela de Pantone que mude.

Diabinhos

sem-titulo

Dia desses eu tirei os meus dentes do siso. Pensei que seria um movimento estratégico, o único bucomaxilo do meu convênio só atendia de segunda-feira e as coisas no meu trabalho estavam mais calmas. Ou seja, teria ficaria em casa de atestado médico por  três ou quatro dias sem peso na consciência. Seriam dias de descanso, iria dormir bem, colocar a leitura em dia, ver séries e descansar. Voltaria no final da semana para o trabalho, renovada e feliz, mas com a inevitável vontade de ficar mais uns diazinhos em casa. Tudo certo. Certo? Não.

No segundo dia eu já não queria mais ficar em casa.  Primeiro porque me esqueci das dores horrendas que tirar dentes provoca, segundo porque não conseguia comer o que eu quisesse – que é uma das coisas legais ao se fazer em casa. Tipo ver filme do Woody Allen comendo pipoca. Pipoca sem 3 dentes? Jamé – e terceiro que os remédios começaram a agredir meu estômago e eu não dormi direito porque de 3 em 3 horas tinha ataque de queimação. Foram dias horrendos.

A culpa, porém, não foi apenas da dor, de não poder comer pipoca nem dormir direito, mas sim que eu tive dias completamente improdutivos. Dias em que ler não me deixava feliz, ver TV muito menos e dormir sem chance porque a ansiedade havia me pegado de jeito. Foi quando no quarto e último dia de atestado eu me peguei pensando naquilo que jamais pensei que pensaria: “não vejo a hora de ficar bem para poder voltar para o trabalho”. É. Virei desses adultos.

Deixe-me explicar o problema dessa frase: para mim existem dois tipos de pessoas: aquelas que durante as férias – se não forem viajar – conseguem ficar em casa de boa, lendo, bebendo vinho, comendo, dormindo de madrugada, indo à feira etc,  e tem  aquelas que ficam malucas em casa. Começam a criar tarefas desnecessárias apenas para sentir que estão fazendo alguma coisa. Eu nunca entendi essas pessoas, eu sempre (repito: sempre!) teria o que fazer de divertido em casa. Mas eis que me enganei.

Durante meus dias de repouso e cara inchada, não conseguia fazer as coisas que normalmente seriam suficientes para preencher minha cabeça, me divertir e distrair. Essas coisas passaram a não ser suficientes para tirar de foco os diabinhos trabalhando (para quem não entendeu: cabeça vazia, oficina do diabo. Logo imagino que nessa oficina tem vários diabinhos trabalhando. Então eu preciso fazer algo para que os diabinhos não trabalhem. Faz sentido, certo?). Ler não mandava os diabinhos descansar, dormir muito menos e os diabinhos não me deixavam em paz se eu não fizesse algo que não fosse produtivo. Coisas do tipo revisar meus textos, lavar a lousa, organizar minha pasta de fotos no computador.

Seria isso sinal de que a vida pessoal está tão merda que eu não vejo a hora de voltar para a profissional? Seria uma revelação e tanto. De qualquer maneira, tudo o que sei é que a partir de agora vou poder erguer o queixo como todo mundo e falar “Ai. Eu fico louca se ficar em casa”.  Ótimo.

Mistress America

imrsNão conheço a obra completa de Noah Baumbach, mas ele sabe falar sobre ser jovem. Prova disso são seus dois filmes Frances HA e Mistress America, ambos roteirizados por ele e por sua fofíssima esposa Greta Gerwig.

Para quem já viu o sensível  Frances HA, é bom saber que Mistress America tenta seguir por essa linha, mas tem uma pegada diferente. O filme de 2015, de roteiro original, é protagonizado por Tracy, uma adolescente  que acabou de se mudar para Nova York e entrar na faculdade. Como quase qualquer aspirante a escritora Tracy é introspectiva e tem dificuldades em fazer amigos, quando comenta isso para sua mãe ela sugere que a filha saia com sua futura meia irmã, filha do seu futuro padastro, Brooke (Greta Gerwig). As futuras irmãs se conectam imediatamente e Tracy se encanta pela desenvoltura de Brooke e sua vida “cool”.

Brooke nos é apresentada sem delongas, em apenas uma noite com a irmã mais nova a personagem se mostra festeira, independente, moderna e tem todas as qualidades que faz qualquer garota de 18 anos faminta pelo mundo se apaixonar e idolatrar.

A fórmula é a mesma de Frances HA; uma adulta que, apesar da idade, não tem sua shit together, ou seja, tem a vida bagunçada assim como quando tinha ao vinte anos. Brooke é uma personagem distante, ela é tanta coisa que acaba sendo nada. A atuação de Greta Gerwig está distante do que ela fez com a queridinha Frances Halliday, em Frances HA. Aqui, a vontade que dá é de sentar com ela e pedir que fale mais dela mesma, porque não dá para conhece-la, o que é estranho já que tudo o que o filme faz é nos mostrar quem é Brooke. Isso me leva a crer que talvez a personagem seja uma metáfora, um conceito sobre essa geração de 30 tão perdida quanto a de 15.

3a00c8_cc0fcc53952e4475ac2ebb0a3e267a7d-mv2 (1)

Mistress America junta as peças na última cena, quando a protagonista Tracy conclui que não há mais lugar para pessoas como Brooke no mundo, que rezam para estar do outro lado (composto de uma vida chata, casamento e filhos) mas não conseguem. Brooke era muito mais que isso e por mais que quisesse jamais estaria do outro lado. Ela representa aquela pessoa que dá esperanças para outras mais jovens, aquelas que sonham em viver fora do check list de faculdade e emprego em um escritório. Mas mesmo fora desse check list Brooke teria uma vida solitária porque assim é a vida de quem tem a missão de ser a esperança.

O ruim do filme foi romantizar o  problema dessa geração, que é nunca fazer nada ou fazer tudo e estar perdida ao mesmo tempo. Não se trata de um problema tão sério e preocupante, mas Mistress America faz parecer que tudo bem você seguir a vida pulando de galho em galho, afinal, a vida é mais que uma carreira profissional. Se isso é bom ou ruim, você que decide.

mistressmaerica
A mensagem clara que encerra o filme é fofa, apesar de meio clichê: o que Brooke fez com Tracy foi incentivá-la a ir por ela mesma, sem depender desesperadamente de grupos que a aceitem. No entanto, os diálogos apenas oks e o carisma de Greta não foram  suficientes para fazer do filme ótimo, as piadas no entanto se tornaram uma surpresa, então se quiser ver algo light mas não vazio e dar uma risadinhas, Mistress America é o seu filme.

‘Como Eu Era Antes de Você’ me fez querer mais

como eu era antes de voce

Acabo de voltar de uma sessão de Como Eu era Antes de Você com certo remorso por não derramar nenhuma lágrima sequer  e pelas garotas do meu lado terem chorado por elas e por mim. É com um pesar que hoje percebo que entendo as pessoas que torcem o nariz para filmes hollywoodianos de massa. Mas, veja bem, isso não quer dizer que não vou continuar gostando de Bridget Jones ou Deadpool , mas sim que existem grandes chances de  continuar saindo com a cara enrugada de uma sessão de filme mal feito, desses feitos sem um pingo de profundidade só para vender. Mas antes vamos ao que se trata: o filme citado.

Como Eu era Antes de Você é a adaptação cinematográfica do livro homônimo roteirizado pela própria autora (Jojo Moyes), que conta a história de Louise, uma garota de 26 anos que precisa ajudar os pais financeiramente e que aceita trabalhar como cuidadora do rico Will, homem de 31 anos que sofreu um acidente há 2 anos e ficou tetraplégico. A partir daí o filme fica  uma mistura de A Bela e a Fera com Tudo por Amor (aquele clássico da Sessão da Tarde no qual Julia Roberts cuida de um rapaz com câncer e acaba se apaixonando por ele).

Louise é energética, sorridente, animada e assim como se veste como uma criança de 7 anos age dessa forma, fazendo tudo com a excitação e bom humor de uma garotinha. Já Will é mau humorado, odeia conversar e no início trata Louise muito mal. Já podemos esperar então o rapaz deficiente se abrindo aos poucos com Louise e ambos mudarem um ao outro, um romance surge e, claro, tem que vir lágrimas no final. Acontece que as lágrimas não vieram pra mim.

Apesar do carisma de Emilia Clarke (Louise), a personagem não convence tão bem e os personagens do filme tem que dizer mais de uma vez que Will está sofrendo tanto ao ponto de considerar uma eutanásia. Eles precisam repetir isso tantas vezes para ver se o público acredita porque  Sam Claflin (Will) transparece muitas coisas ao interpretar o tetraplégico, mas nenhuma delas  é sofrimento. Dor, rancor e tristeza são coisas que o ator parece não ter aprendido a interpretar nas aulas de teatro. Pena.

E então os dois de apaixonam e o trágico final encerra o filme, quase implorando para chorarmos  é tudo tão superficial e previsível que flashes de sono passaram por mim o tempo todo, até fiz trança no cabelo!

Veja bem, gosto de romances e gosto de filmes hollywoodianos, mas Como Eu era Antes de Você veio para provar que não consigo engolir mais qualquer coisa.

Chame de chatice ou do que quiser. Sempre tive raivinha daquelas pessoas que falavam mal de Harry Potter, livros da Marian Keys e uma caralhada de livros que foram feitos para públicos que não tem o hábito de ler. Eu penso que nem tudo precisa ser rebuscado e complexo para ser bom e ainda acho isso, o problema é que quando você já leu tantos livros e viu filmes com o mesmo final e a mesma trama passa a se entendiar e um belo dia você está vendo Donnie Darko por diversão e, o pior de tudo, entendendo! (a fase do entender não cheguei ainda).

Não se trata de arrogância, se trata de que você simplesmente passa a querer mais do que esses filmes oferecem. 

Ainda acredito que livros e filmes assim são importantes, afinal, são uma porta para filmes e livros mais “complexos”. Ninguém começa lendo com Kafka, eu por exemplo comecei por Meg Cabot e não me envergonho disso, acontece que não quero pagar por um livro nem por uma sessão de cinema e sair de lá sem sentir nada, como se não tivesse aprendido nada, com minha mente exatamente como era antes de eu ter lido ou assistido aquilo e a história daqueles personagens simplesmente se desvanecerem até eu dormir e esquecer.

 

Tame Impala

giphy (2)

Vamos falar de Tame Impala? Vamos!

Escrever sobre música pra mim é sempre um parto, talvez até mais que escrever sobre livros e filmes. As três coisas que mais amo nessa vida, mas que, por algum motivo, é dificílimo escrever. Afinal, como passar paras palavras algo que só dá pra sentir? Descrever a sensação e o amor pela arte é um dos desafios da minha vida, e que, vez ou outra, me faz cair em uma fórmula horrenda que deixa meu texto igual ao outro, que está igual ao outro.

Anyway.

Misture Michael Jackson com The Beatles e John Lennon e se tem Tame Impala. Será que poderia parar por aí? Não né.

Dia desses eu estava assistindo o show deles no Lollapalooza Brasil e comentei para minha irmã que o som deles preenche o cérebro inteiro.

Como assim?, ela perguntou. E eu respondi;

Bom, quando escutamos uma música ela fica se passando em um canto da nossa cabeça, dá para fazer outras coisas, ler um livro, pensar no crush, devanear…mas não com o Tame Impala. Alguma coisa ali preenche sua cabeça de uma maneira total e completa que te deixa em transe. Não dá para sair do ciclo colorido até a faixa acabar. Seria a melodia? O arranjo? O exagero de sintetizadores e efeitos na voz? O deslizamento que a música provoca no seu corpo? Ainda estou tentando descobrir, mas não dá para fazer isso enquanto estou zumbi ouvindo a voz falsete do Kevin Parker cantar Let it Happen.

É isso que o a banda faz com você. E o pior, com um fortíssimo apelo pop.

tame impala

Antes de mais nada, Tame Impala não é uma banda de rock n’ roll. Por que? Primeiro porque, nas palavras do dono da coisa toda, eles não são uma banda e não tocam rock n’ roll ( a segunda justificativa já é manjada). Tudo começou lá em 1999 quando o australiano Kevin Parker (vocalista, compositor e guitarrista) e o baixista  Dominic Simper começaram a compor, mas o projeto só foi batizado oficialmente  em 2007  e o 1º álbum lançado em 2009. Sem delongas Innerspeaker estourou pela pegada rock anos 60 . A 1ª faixa, It Is Not Meant to Be conquista logo de cara com Kevin falando sobre sua ex-namorada e como “não era para ser”. Fofa e triste.

Em 2012 chegou o segundo disco, Lonerism, com hits grandes como Feels like we only go backwards (plágio ou não? Você decide).

Já em 2014 a banda lançou seu disco mais pop até então, Currents, causando amorzinho em fãs e raiva em outros. Kevin Parker chegou a comentar que não deveria haver culpa alguma em gostar de pop. E, de fato, não há problema nenhum desde que seja feito algo original e saia da fórmula barata. E é o que o Tame Impala fez em Currents.

Tame Impala é feito para perder o controle e sabe-se lá porque você fica escutando a mesma batida repetidamente junto com uma guitarra crua … Só sabe-se que é bom.É bom demais.

Oh, meu Deus! E por onde eu começo se quero conhecer a banda? Calma aí e ouve meu Top 5:

The less I know te better

Feels Like We Only Go Backwards

Its not mean to be

Let it Happen

Apocalypse Dreams